GESCHREVEN DOOR

Tatiana Salem Levy (PT)
VERTAALD DOOR

Taco Schreij (NL)

Lucy Greaves (GB)
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17 November 2013
Do lado de fora, está muito frio. O nevoeiro cobriu os prédios de Haia e a chuva cai fina. Dia perfeito para ficar no quarto do hotel lendo o novo romance de Juan Pablo Villalobos. Mas a verdade é que me comprometi a entregar uma crônica por dia e se não for ao encontro de Eduardo, o especialista em Inquisição, não terei material de escrita. Não sou propriamente uma fabuladora. Sem experiência, não escrevo. Portanto, se não quero um texto inteiro sobre o inovador gesto de ler um livro num quarto de hotel, tenho que encarar a garoa e o frio, os piores inimigos de quem cresceu nos trópicos.
Sem guarda-chuva nem capuz, saio em busca da estação de trem. O Google me diz que são nove minutos até lá, mas levo dezesseis. Se eu não me perdesse, seria outra pessoa. Confiro a plataforma para onde devo me dirigir e, uma vez no vagão, volto a me sentir em casa. Se eu pudesse, passava a vida num trem, em silêncio, observando o mundo do outro lado da janela e os passageiros que sobem e descem. Entre Haia e Amsterdam o solo é plano; o horizonte, esticado.
Uma viagem de trem vale mais do que uma sessão de análise. Visito a minha infância, imagino dias melhores, lembro os meus mortos, conto a eles o que não conto a ninguém. O tempo lógico se torna o tempo entre duas cidades, que escorre numa velocidade inesperada.
O telefone estava no silencioso, e só quando chego a Amsterdam descubro a mensagem de Eduardo: está quinze minutos atrasado. Aproveito para tomar um café e comprar um exemplar do Le Monde. Quinze minutos depois, outra mensagem: será que você poderia escolher um restaurante e me esperar lá? Começo a ficar inquieta, na minha cabeça tropical, europeus nunca atrasam. Mas a esperança ainda está ao meu lado, Eduardo vai aparecer e contar tudo o que sabe sobre Salom Salem, detalhe por detalhe. Vou voltar para casa com um romance quase pronto embaixo dos braços.
Em Amsterdam também chove, e é por isso que entro no primeiro lugar que encontro, The Doors, um desses típicos bares para enganar turista. No Iphone, escuto os Villagers, que me conquistaram no show de ontem. O disco tem o certeiro nome de Awayland. É nela mesma que moro, nessa terra longínqua, fora de casa.
Envio um sms para Eduardo com todas as indicações e peço um chá de limão com gengibre. Em seguida, uma torta de maçã. Quando olho no celular novamente, a hora ficou para trás. Nenhuma mensagem de Eduardo nos quarenta e cinco minutos em que estou no bar. Decido telefonar, mas seu aparelho está desligado, ou fora de área. Será que ficou sem bateria?
O problema da espera é ser uma espiral sem fim. Só paramos de esperar quando o outro chega. Se o outro não chega, não paramos nunca. Fica sempre a dúvida: se eu partir agora, pode ser que ele surja. Decido aguentar mais quinze minutos. Depois mais quinze e mais quinze e mais quinze. Às cinco da tarde não tenho solução senão me conformar com a evidência do fato e pegar um trem de volta a Haia. Não posso correr o risco de perder a leitura desta noite.
No caminho de retorno, a suposta sessão de análise se transforma numa luta imaginária em que xingo Eduardo de todos os nomes possíveis. Fiz de tudo por uma história, e ela não existiu. Me deixou sem crônica, o maldito. Fui em busca da melhor história e fiquei sem nenhuma.
Aos poucos vou me conformando com o dia perdido, me convencendo de que o passado é uma terra que deve permanecer distante. Basta uma olhadela rápida de vez em quando, e depois é seguir adiante. Quando estou pronta, Taco, o tradutor, bate à minha porta: estava vagando por Haia quando se deparou com a lápide de Spinoza. Você não pode ir embora sem ir até lá, ele afirma, com a expressão ao mesmo tempo entusiasmada e lívida, como se tivesse visto o próprio Spinoza, e não o seu túmulo.

























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