Spring naar de hoofdcontent
language

GESCHREVEN DOOR

Portrait of Tatiana Salem Levy

Tatiana Salem Levy (PT)

VERTAALD DOOR

Portrait of Lucy Greaves

Lucy Greaves (GB)

Portrait of Taco Schreij

Taco Schreij (NL)

O fim, o começo

30 November 2013

A lápide de Spinoza está no terreno de uma igreja em frente ao nosso hotel. O único ruído nessa manhã escura é o dos nossos passos sobre as folhas de outono que cobrem o jardim. Taco me acordou antes das seis para visitar com ele e Lucy o túmulo do filósofo. Seu nome, Benedicti Spinoza, surge entre o vermelho e o amarelo das folhas, como se alguém tivesse levantado mais cedo do que nós e varrido a superfície do mármore.

O sono é tanto que demoro a entender a mudança: Baruch virou Benedicti? Spinoza se tornou católico depois de banido do judaísmo? Por que diabos está enterrado numa igreja? Olho ao meu redor e não vejo outro túmulo por ali. Convertido e respeitado?

Incrível ele estar tão perto do hotel, comenta Lucy.

Faz tempo, cheguei à conclusão de que há certa dose de bruxaria no ato de escrever. Toda vez que começo um texto, eventos misteriosos me levam para perto do seu enredo, como se o mundo real conspirasse a favor do imaginário. Não é diferente desta vez. Desde que sentei para pensar na primeira crônica, tudo me aproxima de Spinoza e de Solomo Salem. Tudo, de alguma forma, me leva para o passado.

Na época em que comecei a escrever meu segundo romance, que se passa em parte na Córsega, eu também fazia um pós-doutorado sobre W.G. Sebald, e quase entrei em delírio quando, passeando por uma livraria em Paris, descobri um livro do autor alemão justamente sobre… a Córsega. Parecia irreal demais para ser verdade, uma encomenda pessoal. E agora, diante de Spinoza, volto a pensar em Sebald: foi ele quem me fez descobrir a cidade para onde vamos quando o dia nascer, num ônibus repleto de músicos, escritores e tradutores.

Antes de ler Austerlitz, a Antuérpia era para mim apenas um nome vazio de significado. Foi esse romance que me fez ir em busca de mais informações sobre a cidade, sua fundação, seus habitantes, sua importância comercial. Mais do que isso, a Antuérpia passou a ocupar um lugar emotivo na minha vida. Afinal, é a cidade onde o narrador do romance de Sebald encontrou Austerlitz pela primeira vez, na estação ferroviária, à espera de um trem que o levasse para longe de uma aflição sem nome. Uma aflição cujo sentido ele só entenderia tempos depois: aos 5 anos de idade, Austerlitz foi mandado de trem para a Inglaterra e entregue a seus pais adotivos, para escapar do nazismo. Antes de conhecer a sua história, o personagem vagava por estações de trem, sem saber por quê.

O passado tem dessas coisas: não-ditos que nos rondam, que insistem em se fazer presentes de alguma forma misteriosa. Fantasmas que nos aterrorizam com o intuito de nos levar adiante. Primeiro, o susto. Em seguida, as perguntas e, com elas, o desejo de esgarçar fronteiras, atravessar limites, ir em busca do desconhecido. E, com a inquietação, a própria escrita, a busca pelos significados, a estrada que às vezes desemboca na morada esperada, e outras tantas bifurca os caminhos, engana, desvia, sem a certeza de uma resposta. Uma aventura sem fronteiras, que tem na sua liberdade o prazer e a dor de sua própria existência. *

De volta a casa, não posso dizer que tenha o romance pronto. Nunca escrevi um livro em menos de dois, três anos. Leva tempo, uma história, para amadurecer. Nem sei se o levarei mesmo a cabo. Mas, ainda no aeroporto, enquanto aguardava a hora da partida, uma certeza se revelava no meu sorriso solitário: estava deixando a Holanda com mais perguntas do que quando cheguei, e, sobretudo, com mais entusiasmo, certa de que havia cruzado fronteiras e vivido experiências inesquecíveis do lado de lá.

Background

Follow us on

Facebook
YouTube
Spotify
Instagram
TikTok
Newsletter

Partners

Logo denhaag
NLF
Fonds21
De Groene Amsterdammer
gau
mercure
dioraphte
HNT
hvg
cjp
nip
studio twin
academy of art
white rabbit
pluim
meulenhof
orion
meridiaan
bezige bij
De geus
querido
promtheus
koppernik
mauritshuis
vaillant
ooievaarspas
Faber
Uitgeverij oevers
cossee
Arbeidspers
HomeAgendaOver

Crossing Border 2026