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Tudo é relativo

16 November 2013

Acordo no meio de um pesadelo: meu pai foi condenado à prisão e me avisa que vai se matar. Tento convencê-lo do contrário, mas sua posição se mantém firme.

Ainda estou zonza por causa do jet leg e, embora eu me levante, meu pensamento continua vagueando pelo reino das imagens aleatórias. A voz do meu pai vai e vem. Seria o sonho uma vingança por ele ter me comparado a Spinoza? Ou seria a culpa me rondando por eu ter discordado dele publicamente?

No corredor, encontro Daphne, a bela escritora que não gosta de sair de casa. Não sei como agir na sua presença. Devo permanecer muda? Afastar-me para não atrapalhar sua solidão? Afinal, ela explicitou na primeira crônica que não gosta de interagir socialmente. Mas é ela própria quem puxa assunto, afirmando sem rodeios que pareço cansada. Será que também desvenda meu pesadelo? Terá descoberto que prendi e suicidei meu pai?

Enquanto Daphne come um pão com salame e eu um iogurte com granola, conversamos sobre nossas vidas, encontramos coincidências e diferenças. Então, ela anuncia que quer visitar o museu da prisão, conhecer suas histórias de conspirações políticas, punições dos prisioneiros, torturas. No mesmo instante, a lembrança irrompe: a última coisa que li antes de me deitar foi um artigo sobre a condenação dos envolvidos num grande esquema de corrupção no governo brasileiro. Graças a Daphne está tudo explicado: não tem nada a ver com culpa, nem vingança, muito menos com Spinoza. *

Sempre que encontro alguém do leste europeu fico pensando na relatividade das coisas. Enquanto no Brasil das décadas de 60 e 70 o comunismo era sinônimo de liberdade – ao menos de libertação da pavorosa ditadura militar –, na Eslováquia, de onde veio a Monika, o comunismo configurava a própria ditadura. Liberdade era alcançar o aeroporto e atravessar a fronteira. *

Muitos desses políticos condenados à prisão participaram da resistência no Brasil, idealizaram e lutaram por um mundo melhor. Meu pai também, e foi por isso que nasci em Lisboa, no exílio. De volta ao quarto, depois da conversa com Daphne, respiro aliviada pensando que, faz tempo, meu pai largou a atividade política. A prisão é um medo sem fundamento, que só aparece nos sonhos. *

Pego um mapa da cidade na recepção, peço dicas de lugares para visitar, espero uma alma gentil traçar o passeio perfeito e, ao ganhar a rua, esqueço o mapa no bolso do casaco, me ponho a flanar sem nenhum compromisso, sem reparar nos nomes das ruas, certa de que no fim não saberei voltar ao hotel.

É o acaso que me leva até o museu da prisão. Lá dentro, passo o olhar por objetos de tortura, cadeiras de julgamento, textos explicando o método de punição de séculos atrás: olho por olho, dente por dente. No geral, o museu não tem graça, mas termina por atingir um mérito: me leva ao quadro “Menino mordido por um lagarto”, de Caravaggio, exposto na galeria ao lado. Se há pintor no mundo que me faz andar quilômetros por um único quadro é ele.

*

Uma vez em frente ao computador me dou conta de que esqueci Spinoza, não fui em busca de seus vestígios. E penso que viajar, assim como escrever, é isso: esquecer algumas coisas, para descobrir outras. *

Acabo de receber um e-mail do meu amigo português de Amsterdam, dizendo que hoje conheceu um professor de literatura especialista em Inquisição. Sabe tudo sobre os judeus dos séculos XVII e XVIII na Holanda e tem um trabalho sobre os rabinos que vieram de outros cantos do mundo para visitar o país. Sugere um encontro amanhã à tarde. Vai me dizer tudo o que sabe a respeito de Salom Salem.

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